“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Meu Deus! Quantos Césares fui”.
Álvaro de Campos
Há alguns dias, ao ler vários textos e e-mails que então escrevera aos amigos ou a meu bel-prazer, percebi-me alógeno; em outras palavras, ao correr os olhos sobre cada palavra, sobre cada mensagem, percebi-me múltiplo, diverso. Não que não o houvera antes percebido. Em verdade, naquele momento, enquanto revisitava situações e lugares que me tocaram profundamente, experimentei um turbilhão de sentimentos revividos pela memória, mas um turbilhão que jamais sentira. Foi como se se desvelasse, diante e dentro de mim, como um espetáculo inesperado, minha própria Caixa de Pandora. Aquele momento foi sentido apenas como aquele momento, o que fez dele e de mim mesmo ímpar. Mas foi apenas enquanto duraram aqueles parcos segundos, e logo a batida do coração, que parecia temporariamente suspensa, dissipou a sensação.
Como fui capaz de sentir isso ou escrever aquilo? Não sei. Talvez a chave seja o que sinto ou escrevo hoje. Houve um lapso, um descompasso entre o que fui e o que sou? Ou a cada período da vida do homem as coisas antigas dão lugar a novas de forma natural, não permitindo sequer alheamento em relação a si próprio?
O fato é que, por segundos, tornei-me alheio a mim mesmo. Senti no espírito o gosto acre da alienação. Na verdade, senti-o e não o senti. Como poderia propriamente compreender o que se me apresentava ex tempore, ex situ, ex nihilo – totalmente fora do tempo, do lugar e do nada?
Bem, e o que quer dizer o termo Doppelgänger? Segundo a mitologia nórdica, especificamente germânica, era um ser fantástico cuja capacidade de representar, de mimetizar, quem ele escolhesse era temida por muitos, admirada por poucos. Literalmente, significa réplica ambulante, duplo errante. Só sei que não fui o único a sentir isso. Muitos outros, cuja imaginação e entendimento transcendem os meus em anos-luz, já se depararam com esse tipo de “presságio”. Cito como exemplo os românticos Percy Shelley e Johann Goethe, e os trago à lume para advogar minha causa e dizer da aura misteriosa que esse “fenômeno” contém. Apesar de à época sua manifestação estivesse ligada a mau agouro, num claro desdobramento do ethos romântico, hoje ela já não é mais sentida assim – pelo menos, para mim, foi a sensação de tudo aquilo que agreguei à’lma, tudo aquilo que fui sem deixar de ser, na verdade, a mesma pessoa, sem deixar de me reconhecer como este sujeito que lhe escreve, complacente leitor, estas obtusas linhas.
Sem mais delongas, apresento-lhe em forma de soneto, dedicado ao gênio do aedo português Antero de Quental, tudo aquilo que divisei:
Meu Deus! Quantos Césares fui”.
Álvaro de Campos
Há alguns dias, ao ler vários textos e e-mails que então escrevera aos amigos ou a meu bel-prazer, percebi-me alógeno; em outras palavras, ao correr os olhos sobre cada palavra, sobre cada mensagem, percebi-me múltiplo, diverso. Não que não o houvera antes percebido. Em verdade, naquele momento, enquanto revisitava situações e lugares que me tocaram profundamente, experimentei um turbilhão de sentimentos revividos pela memória, mas um turbilhão que jamais sentira. Foi como se se desvelasse, diante e dentro de mim, como um espetáculo inesperado, minha própria Caixa de Pandora. Aquele momento foi sentido apenas como aquele momento, o que fez dele e de mim mesmo ímpar. Mas foi apenas enquanto duraram aqueles parcos segundos, e logo a batida do coração, que parecia temporariamente suspensa, dissipou a sensação.
Como fui capaz de sentir isso ou escrever aquilo? Não sei. Talvez a chave seja o que sinto ou escrevo hoje. Houve um lapso, um descompasso entre o que fui e o que sou? Ou a cada período da vida do homem as coisas antigas dão lugar a novas de forma natural, não permitindo sequer alheamento em relação a si próprio?
O fato é que, por segundos, tornei-me alheio a mim mesmo. Senti no espírito o gosto acre da alienação. Na verdade, senti-o e não o senti. Como poderia propriamente compreender o que se me apresentava ex tempore, ex situ, ex nihilo – totalmente fora do tempo, do lugar e do nada?
Bem, e o que quer dizer o termo Doppelgänger? Segundo a mitologia nórdica, especificamente germânica, era um ser fantástico cuja capacidade de representar, de mimetizar, quem ele escolhesse era temida por muitos, admirada por poucos. Literalmente, significa réplica ambulante, duplo errante. Só sei que não fui o único a sentir isso. Muitos outros, cuja imaginação e entendimento transcendem os meus em anos-luz, já se depararam com esse tipo de “presságio”. Cito como exemplo os românticos Percy Shelley e Johann Goethe, e os trago à lume para advogar minha causa e dizer da aura misteriosa que esse “fenômeno” contém. Apesar de à época sua manifestação estivesse ligada a mau agouro, num claro desdobramento do ethos romântico, hoje ela já não é mais sentida assim – pelo menos, para mim, foi a sensação de tudo aquilo que agreguei à’lma, tudo aquilo que fui sem deixar de ser, na verdade, a mesma pessoa, sem deixar de me reconhecer como este sujeito que lhe escreve, complacente leitor, estas obtusas linhas.
Sem mais delongas, apresento-lhe em forma de soneto, dedicado ao gênio do aedo português Antero de Quental, tudo aquilo que divisei:
Sombra, alheamento, reminiscência.
O espectro do outro desfaz a igualdade
Profana, esvai-se-me toda existência
Sobre as aras malditas da alt’ridade.
Sou retalhos que a morte dilacera.
Da matéria da vida rói os ossos,
Bebe o néctar e o sangue, tal quimera;
À própria psique só nos faz avessos.
Tudo ao redor se torna simulacro
E a todo tempo faço-me diverso,
Nos recantos d’alma vagueio, roto.
A ilusão faz da essência vão invólucro,
E agora meu ser, lasso, vê-se imerso,
Na contingência deste mundo ignoto.
O espectro do outro desfaz a igualdade
Profana, esvai-se-me toda existência
Sobre as aras malditas da alt’ridade.
Sou retalhos que a morte dilacera.
Da matéria da vida rói os ossos,
Bebe o néctar e o sangue, tal quimera;
À própria psique só nos faz avessos.
Tudo ao redor se torna simulacro
E a todo tempo faço-me diverso,
Nos recantos d’alma vagueio, roto.
A ilusão faz da essência vão invólucro,
E agora meu ser, lasso, vê-se imerso,
Na contingência deste mundo ignoto.
Thiago Henrique Darin

Um comentário:
A "Complacente leitora" gostou de seus escritos,altivos como sempre. Esse papo de identidade sempre rende poesia, nas mãos de quem possui o estilo e a coragem de se expor. Um grande abraço de sua admiradora e amiga.
Venúncia
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