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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Doppelgänger

“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Meu Deus! Quantos Césares fui”.
Álvaro de Campos

Há alguns dias, ao ler vários textos e e-mails que então escrevera aos amigos ou a meu bel-prazer, percebi-me alógeno; em outras palavras, ao correr os olhos sobre cada palavra, sobre cada mensagem, percebi-me múltiplo, diverso. Não que não o houvera antes percebido. Em verdade, naquele momento, enquanto revisitava situações e lugares que me tocaram profundamente, experimentei um turbilhão de sentimentos revividos pela memória, mas um turbilhão que jamais sentira. Foi como se se desvelasse, diante e dentro de mim, como um espetáculo inesperado, minha própria Caixa de Pandora. Aquele momento foi sentido apenas como aquele momento, o que fez dele e de mim mesmo ímpar. Mas foi apenas enquanto duraram aqueles parcos segundos, e logo a batida do coração, que parecia temporariamente suspensa, dissipou a sensação.
Como fui capaz de sentir isso ou escrever aquilo? Não sei. Talvez a chave seja o que sinto ou escrevo hoje. Houve um lapso, um descompasso entre o que fui e o que sou? Ou a cada período da vida do homem as coisas antigas dão lugar a novas de forma natural, não permitindo sequer alheamento em relação a si próprio?
O fato é que, por segundos, tornei-me alheio a mim mesmo. Senti no espírito o gosto acre da alienação. Na verdade, senti-o e não o senti. Como poderia propriamente compreender o que se me apresentava ex tempore, ex situ, ex nihilo – totalmente fora do tempo, do lugar e do nada?
Bem, e o que quer dizer o termo Doppelgänger? Segundo a mitologia nórdica, especificamente germânica, era um ser fantástico cuja capacidade de representar, de mimetizar, quem ele escolhesse era temida por muitos, admirada por poucos. Literalmente, significa réplica ambulante, duplo errante. Só sei que não fui o único a sentir isso. Muitos outros, cuja imaginação e entendimento transcendem os meus em anos-luz, já se depararam com esse tipo de “presságio”. Cito como exemplo os românticos Percy Shelley e Johann Goethe, e os trago à lume para advogar minha causa e dizer da aura misteriosa que esse “fenômeno” contém. Apesar de à época sua manifestação estivesse ligada a mau agouro, num claro desdobramento do ethos romântico, hoje ela já não é mais sentida assim – pelo menos, para mim, foi a sensação de tudo aquilo que agreguei à’lma, tudo aquilo que fui sem deixar de ser, na verdade, a mesma pessoa, sem deixar de me reconhecer como este sujeito que lhe escreve, complacente leitor, estas obtusas linhas.
Sem mais delongas, apresento-lhe em forma de soneto, dedicado ao gênio do aedo português Antero de Quental, tudo aquilo que divisei:


Sombra, alheamento, reminiscência.
O espectro do outro desfaz a igualdade
Profana, esvai-se-me toda existência
Sobre as aras malditas da alt’ridade.

Sou retalhos que a morte dilacera.
Da matéria da vida rói os ossos,
Bebe o néctar e o sangue, tal quimera;
À própria psique só nos faz avessos.

Tudo ao redor se torna simulacro
E a todo tempo faço-me diverso,
Nos recantos d’alma vagueio, roto.

A ilusão faz da essência vão invólucro,
E agora meu ser, lasso, vê-se imerso,
Na contingência deste mundo ignoto.
Thiago Henrique Darin

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Na sua opinião, Baconzitos é feito de bacon?

A.) Sim! E a democracia é feita pela vontade do povo...
B.) Não! É feito pelo suor do operário mal pago pelo capitalismo selvagem
C.) Quem liga pra isso? É só a lipoaspiração de uma porca...
D.) Nunca tinha pensado... a respeito, claro.

Vencedor, por 3 votos, o item B.

Everton de Almeida Oliveira

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Homem-Utensílio

Do trabalho para casa, da casa para o trabalho, sempre o que encontro ao chegar ao meu lugar de repouso é uma infinidade de artigos dispersos por vários e aleatórios lugares daquele ponto geográfico delimitado aonde chamo de domicílio. Olho com certa indignação porque tudo está como deixei antes. Isso não é motivo para indignar-me, dir-me-iam alguns, todavia, não me furto a esse direito. O que fazem meus sapatos parados no mesmo lugar em que os deixei ontem? Por que as meias estão no chão? E essa infinidade de roupas desdobradas e semi-amarrotadas em cima da minha cama, impedindo-me de deitar para descansar?

A poeira repousa calmamente sobre os móveis, deixando apenas traços de limpeza onde eu, acidentalmente, encostei por algum motivo. Os livros empilhados dão a impressão de uma atividade intelectual frenética, mas estão somente relaxando suas páginas fechadas em outros lugares da casa que não a prateleira normal. A louça convida-me a acariciá-la gentilmente ou com mais firmeza, dependendo da necessidade. Tudo em meu ambiente doméstico parece dizer: “Sou teu destino, não fujas de mim! Parado ficarei até que se aproximes o bastante para que eu o capture num frenesi de atividades para que tudo fique harmônico e organizado”. Não, as coisas não me dizem isso. Seria devaneio demais.

Contudo, o que serve para minha utilidade hoje não mais escravo, tornou-se meu senhor. Estou preso a lavar os garfos, facas, pratos, panelas, engraxar os sapatos, lavar a roupa, varrer a casa, tirar a poeira, preparar a comida, dobrar a roupa, guardá-la, usá-la e pô-la para lavar novamente num ciclo que me encerra em uma prisão, de certa forma voluntária.

Aparentemente não sou mais o dono da minha imensa e tão cantada de louvores, liberdade. Sou livre para arrumar a casa, comprar comida, trabalhar, para comprar mais comida e arrumar novamente a casa. Em que ponto dessa caminhada (se é que é uma caminhada, pode apenas ser a terra passando por debaixo dos meus pés num efeito esteira) esqueci aquela liberdade que tanto defendia e sonhava nos tempos da faculdade? Parece-me que me tornei escravo do que comprei para minha utilidade. Agora sou útil à utilidade. O que compro grita-me por manutenção e nisso esvai-se o meu tempo.

É um assunto extenso. Pode-se falar nele durante muitas páginas. Sobre como alguém deixa de ser o senhor de suas coisas e torna-se seu servidor, mero utilitário para sua manutenção. O Homem-Utensílio, novo e tão comum super-herói moderno. Realmente, há muito que dizer sobre isso. Mas daqui a pouco, porque tenho que comprar detergente no supermercado agora.


Everton de Almeida Oliveira

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Domingo de espíritos boçais

Domingo, 8 horas da manhã. Abro minha janela e, de súbito, sou cumprimentado pela baforada hostil do clima palmense, como o prenúncio de um dia difícil e tedioso. Ao longe, ouço o som de um carro aterrorizando as cócleas daqueles que preferem o silêncio, disseminando os últimos hits regravados do Marrone, do Renner ou do Zezé. Se Buda ou Schopenhauer estivessem no meu lugar, correriam imediatamente para os montes em busca de meditação. Aliás, eu até tenho vontade de fazer isso, mas os montes mais próximos ficam a quilômetros. Não bastasse esse detalhe, o sol dominical avisa que o melhor é ficar em casa.

Ficar em casa! Ótima idéia! Isso realmente é a panacéia para o meu tédio, haja vista que aquele som de espantar Buda já se foi. Chego a pensar que terei, finalmente, um domingo diferente. Ledo engano! Irrompendo do nada, músicas e mais músicas surgem de todos os lados. Sou vítima de um verdadeiro bombardeio de funk, pagode e forró do Calcinha Preta – aliás, por que não vermelha? É mais sensual. Melhor mesmo seria um kit completo da Tiazinha, mas, falando nela, ela ainda existe? Salvo engano meu, ela agora é evangélica ou algo que o valha. Enganei-me?

É hora do almoço, mas, para abrir o apetite, tento ver algo na televisão. Didi? Profetas do Apocalipse? Enlatados americanos e mexicanos? Peões caindo do cavalo? Silvio (sem acento no primeiro “i”) Santos? Isso mesmo! Silvio Santos. Vou assistir ao “roda, roda, roda” e, depois, ao Gugu caridoso e solidário. Não. Desisto. Vou assistir ao programa do Faustão. Exatamente! Vou assistir ao programa inteiro, com um jogo de futebol no intervalo. Já viram isso? Jogo de futebol agora virou intervalo de programa dominical. Tento, faço um esforço, mas desligo a TV. Ligo novamente, já angustiado, mas é inútil.

Vou a uma lanchonete tomar um suco de maracujá. É ideal, pois me deixa relaxado. Detalhe: as músicas da lanchonete são as mesmas que me bombardearam pela manhã. Aliás, as músicas são as mesmas, mas os intérpretes são outros. O gelo vai baixando; a espuma vai sumindo.

São 18 horas. Bate-me uma vontade de fazer uma prece, mas, para tanto, preciso de silêncio, tal como Buda. Quando vou iniciar um pai-nosso mental, entra um sujeito com a camisa do Flamengo, batendo no balcão da lanchonete. “Meeeeeeeeeengo, Meeeeeeeeengo, Meeeeeeeeeeengo”, grita ele. “Aí, cara, o mengão hoje estraçalhou”. Ouço-o narrar o jogo passado por inteiro. Em seguida, ele fala da classificação de todos os times no campeonato brasileiro, enumerando os que provavelmente vão cair para a segunda divisão. Peço minha conta, pago-a e vou embora, reconhecendo-me nas palavras do Bruno Gouveia, do Biquíni Cavadão, quando ele, na música “Domingo”, diz: “Saio e vago nas ruas, porque só isso me resta, e a cidade morre mais um pouco”.

Já passa das 20 horas. Volto para casa. É hora do Fantástico. Em homenagem à Patrícia Poeta, tento assistir ao programa. Quando sou tomado de encanto pela bela morena, surge o Zeca Camargo com seu estilo de mauricinho nova-iorquino. Insisto no Fantástico, mas vem uma consultora de moda, dando dicas e mais dicas, como se estivesse falando para uma platéia no Palácio de Buckingham. Com seu jeito de duquesa londrina, ela traz etiquetas que devem ser seguidas (moda verão, moda inverno, moda praia...), esquecendo-se de que está em um país onde muitas e muitas pessoas sequer têm o que comer. Acho realmente que ela deveria mudar-se para a Inglaterra, pois, dessa forma, poderia indicar roupas para a rainha Elizabeth ou para o príncipe William. Aliás, não. Ela poderia ir morar em Paris para tentar uma vaga na Chanel e ditar a indumentária da italiana namorada do Sarkozy, ficando, de preferência, por lá mesmo.

São 23 horas. É hora de dormir. Faço uma análise do meu domingo e chego à conclusão de que ele foi mais um. Sinto-me sorumbático, macambúzio, desejoso de um transcendentalismo, tal como Kant propunha. É importante salientar, no entanto, que, em um domingo quente e inóspito, não estive sozinho; estive sempre acompanhado por espíritos, espíritos boçais, é bem verdade, desses que atormentam até os sempre serenos hinduístas.

Bem, só me resta cantar e reproduzir os versos dos Titãs. “Domingo eu quero ver o domingo passar; domingo eu quero ver o domingo acabar”. Se Buda ou Schopenhauer estivessem no meu lugar...



Gildo Melo Silva