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quarta-feira, 10 de junho de 2009

NIRVANA & SAMSARA

O gosto acre na boca é só o início
Do Samsara, da roda do suplício
Que tritura carcaças inauditas,
Empaladas ao pé das palafitas.

No silêncio insulso do interstício
Que separa esperança do cilício,
Partilho a solidão dos eremitas,
Entregue a Sorte às vastidões malditas.

Se erro nos labirintos da Verdade,
Quando me procuro à sombra do Nada,
Encontro-me cindido e fragmentário.

A busca do prazer é veleidade.
Com a pena em ilusão mergulhada,
Tisno as letras de meu próprio obituário.
Thiago Henrique Darin.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

VITAE MORS CONSENTANEA

Oh! A vida é um abismo! Mas fecundo!
Antero de Quental

Exércitos e tropas, hostil hoste,
Algozes ou invencível armada,
Provaram ignomínia e derrocada
Nesta testilha que ora afronta a Sorte.

Quer na velhice, quer na altivez forte,
Em que o gládio da destra inabalada
Desfalece e, adstrito a quase nada,
Detém-se à vista da sua própria morte.

Eis, enfim, o que somos: o guerreiro
Do infindo absurdo, do caos rotundo,
Que da vendetta o faz rude herdeiro,

Maldiz a Vida como execra o Mundo,
À aba do inóspito desfiladeiro,
Ao umbral d’último arquejo profundo.

Thiago H. Darin.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Doppelgänger

“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Meu Deus! Quantos Césares fui”.
Álvaro de Campos

Há alguns dias, ao ler vários textos e e-mails que então escrevera aos amigos ou a meu bel-prazer, percebi-me alógeno; em outras palavras, ao correr os olhos sobre cada palavra, sobre cada mensagem, percebi-me múltiplo, diverso. Não que não o houvera antes percebido. Em verdade, naquele momento, enquanto revisitava situações e lugares que me tocaram profundamente, experimentei um turbilhão de sentimentos revividos pela memória, mas um turbilhão que jamais sentira. Foi como se se desvelasse, diante e dentro de mim, como um espetáculo inesperado, minha própria Caixa de Pandora. Aquele momento foi sentido apenas como aquele momento, o que fez dele e de mim mesmo ímpar. Mas foi apenas enquanto duraram aqueles parcos segundos, e logo a batida do coração, que parecia temporariamente suspensa, dissipou a sensação.
Como fui capaz de sentir isso ou escrever aquilo? Não sei. Talvez a chave seja o que sinto ou escrevo hoje. Houve um lapso, um descompasso entre o que fui e o que sou? Ou a cada período da vida do homem as coisas antigas dão lugar a novas de forma natural, não permitindo sequer alheamento em relação a si próprio?
O fato é que, por segundos, tornei-me alheio a mim mesmo. Senti no espírito o gosto acre da alienação. Na verdade, senti-o e não o senti. Como poderia propriamente compreender o que se me apresentava ex tempore, ex situ, ex nihilo – totalmente fora do tempo, do lugar e do nada?
Bem, e o que quer dizer o termo Doppelgänger? Segundo a mitologia nórdica, especificamente germânica, era um ser fantástico cuja capacidade de representar, de mimetizar, quem ele escolhesse era temida por muitos, admirada por poucos. Literalmente, significa réplica ambulante, duplo errante. Só sei que não fui o único a sentir isso. Muitos outros, cuja imaginação e entendimento transcendem os meus em anos-luz, já se depararam com esse tipo de “presságio”. Cito como exemplo os românticos Percy Shelley e Johann Goethe, e os trago à lume para advogar minha causa e dizer da aura misteriosa que esse “fenômeno” contém. Apesar de à época sua manifestação estivesse ligada a mau agouro, num claro desdobramento do ethos romântico, hoje ela já não é mais sentida assim – pelo menos, para mim, foi a sensação de tudo aquilo que agreguei à’lma, tudo aquilo que fui sem deixar de ser, na verdade, a mesma pessoa, sem deixar de me reconhecer como este sujeito que lhe escreve, complacente leitor, estas obtusas linhas.
Sem mais delongas, apresento-lhe em forma de soneto, dedicado ao gênio do aedo português Antero de Quental, tudo aquilo que divisei:


Sombra, alheamento, reminiscência.
O espectro do outro desfaz a igualdade
Profana, esvai-se-me toda existência
Sobre as aras malditas da alt’ridade.

Sou retalhos que a morte dilacera.
Da matéria da vida rói os ossos,
Bebe o néctar e o sangue, tal quimera;
À própria psique só nos faz avessos.

Tudo ao redor se torna simulacro
E a todo tempo faço-me diverso,
Nos recantos d’alma vagueio, roto.

A ilusão faz da essência vão invólucro,
E agora meu ser, lasso, vê-se imerso,
Na contingência deste mundo ignoto.
Thiago Henrique Darin