Domingo, 8 horas da manhã. Abro minha janela e, de súbito, sou cumprimentado pela baforada hostil do clima palmense, como o prenúncio de um dia difícil e tedioso. Ao longe, ouço o som de um carro aterrorizando as cócleas daqueles que preferem o silêncio, disseminando os últimos hits regravados do Marrone, do Renner ou do Zezé. Se Buda ou Schopenhauer estivessem no meu lugar, correriam imediatamente para os montes em busca de meditação. Aliás, eu até tenho vontade de fazer isso, mas os montes mais próximos ficam a quilômetros. Não bastasse esse detalhe, o sol dominical avisa que o melhor é ficar em casa.
Ficar em casa! Ótima idéia! Isso realmente é a panacéia para o meu tédio, haja vista que aquele som de espantar Buda já se foi. Chego a pensar que terei, finalmente, um domingo diferente. Ledo engano! Irrompendo do nada, músicas e mais músicas surgem de todos os lados. Sou vítima de um verdadeiro bombardeio de funk, pagode e forró do Calcinha Preta – aliás, por que não vermelha? É mais sensual. Melhor mesmo seria um kit completo da Tiazinha, mas, falando nela, ela ainda existe? Salvo engano meu, ela agora é evangélica ou algo que o valha. Enganei-me?
É hora do almoço, mas, para abrir o apetite, tento ver algo na televisão. Didi? Profetas do Apocalipse? Enlatados americanos e mexicanos? Peões caindo do cavalo? Silvio (sem acento no primeiro “i”) Santos? Isso mesmo! Silvio Santos. Vou assistir ao “roda, roda, roda” e, depois, ao Gugu caridoso e solidário. Não. Desisto. Vou assistir ao programa do Faustão. Exatamente! Vou assistir ao programa inteiro, com um jogo de futebol no intervalo. Já viram isso? Jogo de futebol agora virou intervalo de programa dominical. Tento, faço um esforço, mas desligo a TV. Ligo novamente, já angustiado, mas é inútil.
Vou a uma lanchonete tomar um suco de maracujá. É ideal, pois me deixa relaxado. Detalhe: as músicas da lanchonete são as mesmas que me bombardearam pela manhã. Aliás, as músicas são as mesmas, mas os intérpretes são outros. O gelo vai baixando; a espuma vai sumindo.
São 18 horas. Bate-me uma vontade de fazer uma prece, mas, para tanto, preciso de silêncio, tal como Buda. Quando vou iniciar um pai-nosso mental, entra um sujeito com a camisa do Flamengo, batendo no balcão da lanchonete. “Meeeeeeeeeengo, Meeeeeeeeengo, Meeeeeeeeeeengo”, grita ele. “Aí, cara, o mengão hoje estraçalhou”. Ouço-o narrar o jogo passado por inteiro. Em seguida, ele fala da classificação de todos os times no campeonato brasileiro, enumerando os que provavelmente vão cair para a segunda divisão. Peço minha conta, pago-a e vou embora, reconhecendo-me nas palavras do Bruno Gouveia, do Biquíni Cavadão, quando ele, na música “Domingo”, diz: “Saio e vago nas ruas, porque só isso me resta, e a cidade morre mais um pouco”.
Já passa das 20 horas. Volto para casa. É hora do Fantástico. Em homenagem à Patrícia Poeta, tento assistir ao programa. Quando sou tomado de encanto pela bela morena, surge o Zeca Camargo com seu estilo de mauricinho nova-iorquino. Insisto no Fantástico, mas vem uma consultora de moda, dando dicas e mais dicas, como se estivesse falando para uma platéia no Palácio de Buckingham. Com seu jeito de duquesa londrina, ela traz etiquetas que devem ser seguidas (moda verão, moda inverno, moda praia...), esquecendo-se de que está em um país onde muitas e muitas pessoas sequer têm o que comer. Acho realmente que ela deveria mudar-se para a Inglaterra, pois, dessa forma, poderia indicar roupas para a rainha Elizabeth ou para o príncipe William. Aliás, não. Ela poderia ir morar em Paris para tentar uma vaga na Chanel e ditar a indumentária da italiana namorada do Sarkozy, ficando, de preferência, por lá mesmo.
Ficar em casa! Ótima idéia! Isso realmente é a panacéia para o meu tédio, haja vista que aquele som de espantar Buda já se foi. Chego a pensar que terei, finalmente, um domingo diferente. Ledo engano! Irrompendo do nada, músicas e mais músicas surgem de todos os lados. Sou vítima de um verdadeiro bombardeio de funk, pagode e forró do Calcinha Preta – aliás, por que não vermelha? É mais sensual. Melhor mesmo seria um kit completo da Tiazinha, mas, falando nela, ela ainda existe? Salvo engano meu, ela agora é evangélica ou algo que o valha. Enganei-me?
É hora do almoço, mas, para abrir o apetite, tento ver algo na televisão. Didi? Profetas do Apocalipse? Enlatados americanos e mexicanos? Peões caindo do cavalo? Silvio (sem acento no primeiro “i”) Santos? Isso mesmo! Silvio Santos. Vou assistir ao “roda, roda, roda” e, depois, ao Gugu caridoso e solidário. Não. Desisto. Vou assistir ao programa do Faustão. Exatamente! Vou assistir ao programa inteiro, com um jogo de futebol no intervalo. Já viram isso? Jogo de futebol agora virou intervalo de programa dominical. Tento, faço um esforço, mas desligo a TV. Ligo novamente, já angustiado, mas é inútil.
Vou a uma lanchonete tomar um suco de maracujá. É ideal, pois me deixa relaxado. Detalhe: as músicas da lanchonete são as mesmas que me bombardearam pela manhã. Aliás, as músicas são as mesmas, mas os intérpretes são outros. O gelo vai baixando; a espuma vai sumindo.
São 18 horas. Bate-me uma vontade de fazer uma prece, mas, para tanto, preciso de silêncio, tal como Buda. Quando vou iniciar um pai-nosso mental, entra um sujeito com a camisa do Flamengo, batendo no balcão da lanchonete. “Meeeeeeeeeengo, Meeeeeeeeengo, Meeeeeeeeeeengo”, grita ele. “Aí, cara, o mengão hoje estraçalhou”. Ouço-o narrar o jogo passado por inteiro. Em seguida, ele fala da classificação de todos os times no campeonato brasileiro, enumerando os que provavelmente vão cair para a segunda divisão. Peço minha conta, pago-a e vou embora, reconhecendo-me nas palavras do Bruno Gouveia, do Biquíni Cavadão, quando ele, na música “Domingo”, diz: “Saio e vago nas ruas, porque só isso me resta, e a cidade morre mais um pouco”.
Já passa das 20 horas. Volto para casa. É hora do Fantástico. Em homenagem à Patrícia Poeta, tento assistir ao programa. Quando sou tomado de encanto pela bela morena, surge o Zeca Camargo com seu estilo de mauricinho nova-iorquino. Insisto no Fantástico, mas vem uma consultora de moda, dando dicas e mais dicas, como se estivesse falando para uma platéia no Palácio de Buckingham. Com seu jeito de duquesa londrina, ela traz etiquetas que devem ser seguidas (moda verão, moda inverno, moda praia...), esquecendo-se de que está em um país onde muitas e muitas pessoas sequer têm o que comer. Acho realmente que ela deveria mudar-se para a Inglaterra, pois, dessa forma, poderia indicar roupas para a rainha Elizabeth ou para o príncipe William. Aliás, não. Ela poderia ir morar em Paris para tentar uma vaga na Chanel e ditar a indumentária da italiana namorada do Sarkozy, ficando, de preferência, por lá mesmo.
São 23 horas. É hora de dormir. Faço uma análise do meu domingo e chego à conclusão de que ele foi mais um. Sinto-me sorumbático, macambúzio, desejoso de um transcendentalismo, tal como Kant propunha. É importante salientar, no entanto, que, em um domingo quente e inóspito, não estive sozinho; estive sempre acompanhado por espíritos, espíritos boçais, é bem verdade, desses que atormentam até os sempre serenos hinduístas.
Bem, só me resta cantar e reproduzir os versos dos Titãs. “Domingo eu quero ver o domingo passar; domingo eu quero ver o domingo acabar”. Se Buda ou Schopenhauer estivessem no meu lugar...
Gildo Melo Silva
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