segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Apologia de Thoreau


Suponhamos um homem de nosso tempo, atormentado pela celeridade das transformações do mundo contemporâneo, bombardeado por um fluxo interminável de informações não menos incessantes, elas mesmas caóticas, e dotado, ainda assim, do pleno uso de suas faculdades cognitivas. Seria ele capaz de imaginar, como indagou certa vez o filósofo alemão Friedrich Nietzsche em sua obra Para Além de Bem e Mal, “o quanto de verdade suportaria um espírito?”. Façamos a pergunta sob outro molde: de quanto precisaria um espírito para “libertar” a humanidade com a idéia mais pura de liberdade? Por acaso não teria de ser esse homem o mais livre dentre todos os seus predecessores? Pois o ianque mais característico de sua terra, a tão propalada “the land of the free and the home of the brave”, precisou de muito pouco – ofereceu um manifesto de menos de quinze páginas! Falamos do norte-americano Henry David Thoreau (1817-1862) e de seu opúsculo On The Duty of Civil Disobedience, conhecido cá no Brasil como A Desobediência Civil.
Thoreau nasceu em Concord, no Estado de Massachusetts; estudou na Universidade de Harvard, onde travou contato e grande amizade com o pensador Ralph Waldo Emerson. Influenciado por seu amigo e conterrâneo, bem como pelo ideário iluminista do francês Jean-Jacques Rousseau, Thoreau desenvolveu teorias que se encontram no cerne do “Transcendentalismo Estadunidense”, tangenciando aspectos da cultura neoclássica e, em alguns pontos, da romântica. O bucolismo, a aproximação com a natureza – in puris naturalibus – o famigerado locus amoenus dos poetas árcades, o subjetivismo do eu-lírico romântico, mesclados ao individualismo pragmático norte-americano, por ele transformado e radicalizado, encontraram eco nas teorias pacifistas e nos movimentos em defesa dos direitos civis por todo o mundo – como as manifestações lideradas por Martin Luther King Jr., conhecidas como Civil Rights Movement – influenciando desde o escritor russo Leon Tolstoi, que fundou uma escola para filhos de camponeses em sua propriedade de Iásnaia Poliana, passando pela doutrina da não-violência do líder indiano Mahatma Gandhi, a Satyagraha, até o movimento hippie, nas décadas de 60 e 70 do século XX.
Tamanha abrangência de um pensamento por muitos tachado de “anarquista pacifista” causa espanto se considerada sua gênese – o breve, mas poderoso, ensaio A Desobediência Civil. Lido durante uma palestra no Liceu de Concord em fevereiro de 1848, época das grandes efervescências socioculturais que abalaram o palco do Velho Mundo e da mais promissora colônia das Américas, demolindo o obsoleto aparato ideológico do Ancien Régime – conhecida como “A Primavera dos Povos” – foi publicado um ano mais tarde, em 1849, numa antologia organizada por Elizabeth Peabody. Como tal liberdade e potência de um escrito aparentemente inerme, mas que, à guisa de uma análise mais profunda, demonstrar-se-ia mais potente que impérios e exércitos inteiros, poderia provir de uma vida tão pacata e bucólica? É certo que pertence ao Panteão de grandes escritores da Literatura e da Filosofia a capacidade de antever, ante as situações mais adversas, uma saída para as crises que assolam o inconsciente coletivo de tempos em tempos. Como a pena arredia e cáustica de Voltaire, que em três dias escreveu Candide e solapou os velhos valores da hipócrita França de Luís XV, Thoreau redigiu esse libelo à tirania e à opressão do Estado durante sua curta passagem pela prisão de sua cidade natal.
Eis, substancialmente, o que caracteriza a matéria de sua obra – um grito sedento por todas as nuances possíveis de liberdade, contra a crueldade dos governos que saqueiam e pilham, de acordo com seu próprio talante, todas as garantias de autonomia e direitos individuais.
É inegável que muitos viram em sua vida simples, pacata e solitária o baluarte do anarquismo pacifista, e mesmo calcado no rol dos teóricos do movimento, ao lado de figuras como Proudhon, Stirner, Bakunin e Kropotkin, por exemplo. No entanto, tal parece ser uma leitura deveras equivocada e tendenciosa. Como seu coetâneo Emerson, não podemos dizer que Thoreau era, ou mesmo se considerava, “anarquista”. A frase que abre o escrito, “o melhor governo é o que menos governa” (“that govern is best which governs least”), tomada à corrente democrática dos “Pais da Nação” Washington e Jefferson, pode ser haurida como exemplo. Mesmo que, no decorrer de seu texto, nosso autor confesse: “O melhor governo é o que não governa; e quando os homens estiverem preparados, será o tipo de governo que terão” (“that govern is best which governs not at all; and when men are prepared for it, that will be the kind of government which they will have”), Thoreau abre espaço para a confissão: “Mas, para falar francamente e como cidadão, a despeito daqueles que se chamam anti-governistas, eu peço, não apenas não governo, mas ao menos um melhor governo” (“But, to speak practically and as a citizen, unlike those who call themselves no government men, I ask for, nota t once no government, but at once a better government”). Em suma, ele é apenas um cidadão consciente de seus direitos e responsabilidades, e impõe mesmo como dever moral a resistência civil a qualquer governo ou lei injusta, sob pena de se tornar mais uma peça da pérfida engrenagem do sistema social.
Aqui termina nossa explanação. Arvorados em fortes razões, podemos dizer que esse texto brilhante não é por certo a obra-prima de Thoreau. Walden, publicado em 1854, é uma das maiores obras que a Literatura norte-americana legou ao resto do mundo. Contudo, somos forçados a admitir que A Desobediência Civil constitui um prático guia para derrubar governos injustos e fornecer um tipo de esperança a muitas pessoas massacradas por guerras desnecessárias.

Thiago Henrique Darin

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